sexta-feira, 18 de abril de 2014

Doze homens e um segredo: Lições do Lava-pés (Crônicas da Última Semana parte 3)

Naquela noite todos podiam ter entrado para a história como exemplos universais a serem seguidos. Poderia ter-se ouvido um burburinho, um corre-corre, uma intensa atividade que faria com que o serviço fosse rapidamente acabado e todos pudessem tomar seus lugares à mesa e desfrutar de mais tempo na companhia do grande amigo que estava prestes a partir. Uma noite memorável que nunca seria esquecida.

De fato, não foi. Porém, não foi do jeito que deveria ser. Ao contrário, foi uma noite de algum constrangimento. De rostos sem graça olhando para baixo. De corações que se perguntavam: “Como não pensei nisso antes?”

Era o dia especial para os judeus, o momento de celebrar a Páscoa. Era quando lembravam a grande libertação da terra do Egito, quando Deus desembainhou sua espada contra Faraó e os tirou com mão forte do cativeiro. Diante deles, o Mestre. O clima andava tenso. Os acontecimentos das próximas horas mudariam a rumo da história da humanidade. Eles não tinham percebido isso, mas seria a última páscoa. Aquela refeição seria única na experiência daqueles homens.

Não havia escravos na casa. O espaço tinha sido cedido por um homem desconhecido, para que o grupo celebrasse a páscoa. A mobília pronta, a mesa posta, água, bacia e toalhas. Mas não tinha ninguém para fazer o humilde serviço de um escravo: lavar os pés dos comensais. Todos esperavam o momento em que o Mestre começaria mais um de seus discursos, falando aos corações deles sobre coisas profundas e eternas.

Todos se assentam. A ceia começa. Ninguém se manifesta. De repente, para surpresa de todos, Ele se levanta. Tira a veste de cima, enrola-se numa toalha. Sob os olhares espantados de doze pares de olhos, caminha até uma talha. Derrama água em uma bacia. Chega-se aos pés empoeirados do primeiro discípulo. Curva-se. Mete a mão na água e lava-os. Enxuga com a toalha. Vai para o próximo. O silêncio é palpável. Gostariam de enfiar-se num alçapão e sumir dali.

O silêncio é quebrado, mas antes não tivesse sido. É Pedro. Ele se recusa.  “NUNCA me lavarás os pés”. Devia ter ficado quieto. Jesus lavou seus pés. Lavou também os de Judas, que daqui a pouco o entregaria pelo preço de um escravo, 30 moedas de prata. Cada um poderia apresentar suas desculpas. Judas tinha que sair logo. Ele já nada tinha a ver com aquilo. João, o apóstolo do amor, não tinha “sentido no coração”. Mateus, o ex-publicano, podia ter medo de ser mal compreendido por Simão Zelote e vice-versa. André podia achar que já tinha feito muito de levar Pedro ao Messias. Tomé só acreditaria vendo e Filipe ainda estava procurando o Pai. Pedro só lavaria o corpo inteiro. Bartolomeu, Tadeu e Tiago, que tinham ficado de boca fechada até agora, tinham medo de se manifestar em momento tão crucial.

Os doze homens ainda não tinham aprendido o segredo: “Quem ser grande entre vós, seja esse o que vos sirva.” Servir aos outros era uma bênção para o Senhor, não um castigo: “Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes”. Era uma missão de vida, não um fardo a ser evitado a todo custo: “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir”. Era uma atitude a ser copiada, não uma performance a ser encenada: “Eu vos dei o exemplo para que como eu vos fiz, façais vós também.” Enquanto alguns ainda disputavam o lugar principal, Jesus gastava sua energia assumindo o papel de Servo.

Esta é a ordem no Reino e o segredo de uma vida vitoriosa e bem sucedida: encontrar prazer em servir aos outros. Alguns discípulos disseram que estavam dispostos a ir até a morte pelo Senhor. Diz a história que isto foi o que realmente acabou acontecendo. Porém, até aquele momento, eles não estavam dispostos sequer a lavar os pés uns dos outros. Nem mesmo os pés do Salvador. Ainda não estavam totalmente prontos. Foi a primeira lição que Jesus destacou na última hora em que esteve a sós com seus discípulos. Uma lição que faríamos bem em aprender.


Uma vida de serviço é o único tipo de vida que realmente vale a pena. 


Leia mais
1ª Parte: Hosana!  clique aqui
2ª Parte: Maria de Betânia clique aqui

terça-feira, 15 de abril de 2014

Marcos Soares - JUÍZES - Os bastidores do caos 02

Marcos Soares - JUÍZES - Os bastidores do caos 01

Maria de Betânia (Crônicas da Última Semana parte 2)


700 ml. Mas representavam um verdadeiro tesouro. Custaram o equivalente a 300 dias de salário de um trabalhador comum. Isso se ele fosse capaz de economizar tudo o que ganhasse durante tanto tempo. Aquele perfume era uma pequena fortuna. Fragrância importada da Índia, devia ser usado como qualquer perfume caro: bem pouquinho de cada vez, em ocasiões mais do que especiais.

Maria era de uma família simples. Nada indica que ela fosse rica. Muito provavelmente, aquele frasco era o que ela tinha de maior valor financeiro na vida. Acontece que onde está o seu verdadeiro tesouro, aquilo que realmente você valoriza, seu coração está lá. Dinheiro, riqueza, bens materiais, sonhos de consumo, tudo isso perde o valor diante do Eterno.

Ela conhecia e amava o Mestre. Ele era um grande amigo da família. Um ano antes, seu irmão havia sido ressuscitado por ele, quatro dias depois do enterro. O que poderia valer menos do que isso? Se você já sofreu a dor da perda de um ente querido, você é capaz de avaliar o que representou para Maria a restauração de vida de seu irmão.

E então ela quis fazer o melhor para mostrar seu amor e consideração por Jesus. Ela não tinha coragem de fazer menos do que o melhor. Ainda que para isso, ela tivesse que abrir mão de tudo o que tinha de mais precioso. Sem conta-gotas. Sem economia. Sem miséria. 

Entrou na sala onde Jesus estava. Quebrou o vaso, para que não sobrasse nada. Derramou o perfume sobre os pés e sobre a cabeça do Senhor. Isto era um reconhecimento de que ali estava um rei. Não se incomodou com as reações. Ela sabia que poderia ser ridicularizada e incompreendida. Isso não fazia diferença nenhuma. Seu foco era honrar a Cristo, não ser aplaudida pelos outros. “Ela fez o que pode”, ressaltou Jesus. Fez o que estava ao seu alcance. 

É sempre assim: quem faz o que pode para honrar a Jesus, consegue transformar os atos mais simples em atos proféticos, plenos de significado. “Ela me ungiu para o meu sepultamento”, disse Cristo. A quebra de um vaso se torna um ato extraordinário de adoração, algo para ser lembrado onde quer que o Evangelho fosse pregado.


Nunca será demais o que fazemos para engrandecer a Cristo.


Para ler a parte 1 da série, clique aqui

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Hosana! (Crônicas da Última Semana parte 1)

A cena empolga. Uma multidão protagoniza uma cena emocionante, jamais vista com outro rabino. Estão cumprindo, talvez sem perceber, uma profecia de mais de 400 anos. Zacarias disse que isso iria acontecer com o Messias.

A chegada de Jesus a Jerusalém, dias antes daquela Páscoa, é envolta em verdades e contrastes. O Rei da glória não chega à capital com pompa e poderio. Não é escoltado por soldados treinados, montado em um cavalo de raça. Não está sendo esperado para participar de uma cerimônia solene no palácio. Ele vem como um rei humilde, montado em um jumentinho. É ignorado pelos poderosos e odiado pelos religiosos.

Acontece que uma multidão é sempre uma incógnita. Quem segue a massa pode estar ali por motivos muito variados. É assim num comício, num jogo de futebol, numa passeata ou num protesto. Foi assim no dia em que o Rei dos reis é aclamado como o “Bendito que vem em nome do Senhor!”

Por que estenderam suas roupas e os ramos para ele passar? Por que que gritaram “Hosana”? Estavam convencidas de que ele era mesmo o Messias ou esperavam alguma coisa? Queriam sua salvação, mas que tipo de salvação? De Roma ou do império das trevas? Queriam um reino ou queriam um Rei?

Uma semana depois, parte da mesma multidão mudou a palavra de ordem. Ao invés de “Hosana, bendito o que vem em nome do Senhor” o que se ouviu foi “Crucifica-o! Crucifica-o! Não temos rei senão César!”.

Jesus era o Messias e o Messias era, de verdade, o Rei. Ele merecia aquela parada e aquelas homenagens da multidão. Eles cumpriam naquele instante mais uma de todas as profecias messiânicas que se encaixavam perfeitamente e exclusivamente na Pessoa de Cristo.

Porém, reconhecer isso demandava mais do que fazer parte de uma passeata. Exigia fé pessoal e convicção individual.


Para ler a segunda parte, clique aqui

terça-feira, 1 de abril de 2014

É mentira!

Amigos, que dia é hoje? O 1º de abril, dia dos tolos, dia da mentira, dia de pregar peças. 

Dia da mentira não é coisa nova. É tão velha quanto seu pai. Tão suja quanto ele. Mentira branca, azul, amarela. Mentira comercial, para se dar bem, para as coisas não ficarem piores. É tudo do mesmo saco. Vem todas do mesmo buraco. Mentir para os filhos, para o marido, para a professora, para o namorado, para os pais. É tudo a mesma estratégia, que começou a ser usada pela velha serpente. O problema é que mentira tem pernas curtas, só que são bem torneadas, não têm varizes nem celulite. Por isso chama a atenção e muito marmanjo corre atrás dela babando. 

Agora, mentira não é só o ato de mentir. Pode ser um ato de pensar. Pode ser um ato de formar opinião. Só diz mentira quem pensa mentira. E quem pensa mentira, vive mentira. E quando a gente começa a viver uma mentira, acaba acreditando que ela é verdade.
 

Tem mentira política internacional, do tipo "Vamos invadir o Iraque para achar as armas de destruição em massa". Tem mentira eleitoral, do tipo "Vamos criar 10 milhões de empregos em 4 anos".
 

Tem mentira sofisticada, embalada em papel celofane, com lacinho e arranjo de flores. São aquelas que ninguém percebe. Vêm nos filmes de Hollywood, nas entrevistas da televisão, nas aulas da faculdade e até nos livros do ensino fundamental. É mentira moderna, articulada, elaborada nos centros mais cultos e influentes do planeta. Quem nunca ouviu a mentira da evolução, das mutações genéticas ou das "provas científicas"?
 

Tem mentira religiosa, embalada em papel mais sóbrio, cheio de citações bíblicas por dentro e por fora. Mas qual um cavalo de Tróia, quando você chega mais perto, começa a ouvir que um salvo pode deixar de ser salvo, que Jesus Cristo não é Deus, que é preciso guardar o sábado, dar o dízimo e ser batizado para ser salvo, que crente não fica doente nem pode passar dificuldade.
 Ultimamente voltou à pauta a mentira de que no fim, todos serão salvos.

Será que precisamos mesmo de um dia para a mentira? Não seria melhor lançarmos o dia da verdade? Mas este não pega. Não pega porque desde os tempos de Isaías, "a verdade anda tropeçando pelas praças, e a retidão não pode entrar. Sim, a verdade sumiu, e quem se desvia do mal é tratado como presa" (Is 59:14,15). Não é politicamente correto viver, defender e sequer pensar a verdade. Isso é exposição demasiada. Imagine, de quem vamos ser amigos se falarmos em verdade? Que dirá se falarmos em verdade absoluta, num mundo onde tudo é relativo!
 

A verdade sumiu. Sumiu da pauta da televisão, dos noticiários, dos editoriais, das conversas entre amigos, dos livros dos professores, das sentenças dos juízes, das gravações dos procuradores da República, do discurso dos presidentes, da ONU, dos partidos políticos. Sumiu. Sumiu como chapéu velho. Sumiu até de alguns púlpitos, revistas, sites, publicações e programas evangélicos.
 

E aí eu me lembro das palavras revolucionárias de um rabino judeu, há séculos atrás. Ele teve a coragem e a ousadia de falar a verdade. Mais do que isso: ele se declarou a própria personificação da verdade. Ele disse que a única forma de liberdade possível para qualquer sociedade, em qualquer época era a verdade. "Quando vocês conhecerem a verdade, a verdade os tornará livres". E depois, a um grupo restrito de discípulos, ele assume: EU SOU A VERDADE.
 

Que verdade? TODA A VERDADE. Toda a verdade espiritual, moral, cósmica, emocional, existencial. Verdade que quebra grilhões. Verdade que liberta. Verdade que permite que não sejamos mais enganados, nem feitos inocentes úteis nas mãos do pai da mentira.
 

Eu repudio o Dia da Mentira. Já chega. Eu quero cantar a liberdade. Quero declarar minha esperança inabalável num Reino que vai chegar, capitaneado pelo Cavaleiro que se chama Fiel e Verdadeiro,que julga e peleja com justiça.
 

O Dia da Mentira é pura ilusão. O Dia da Verdade vai chegar.
 

Para ficar.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Entrevista com o presbítero da igreja de Éfeso


Entrevistamos esta semana um presbítero da igreja de Éfeso. Ele não quer ser identificado, por isso vamos chamá-lo de "Mr. M". Por esta igreja passaram grandes nomes, como Apolo, Paulo, Timóteo e João. Nos dias de glória, incomodava a religião fortemente arraigada de sua cidade. Houve grande tumulto na cidade, por causa da revolta dos adoradores de Diana. Ela fez diferença. Agora, a situação era outra. 

FD: Foi difícil conseguir um espaço na sua agenda. Muita correria?

"Mr. M":
 Ah, a gente não tem tempo sobrando mesmo, não. Temos muita coisa pra fazer no ministério, não dá tempo para ficar respondendo carta com pergunta. Temos outras prioridades. Agora, por exemplo, estamos trabalhando na organização do IV Congresso Asiático de Defesa dos Princípios, Sã Doutrina e Identidade. Você sabe, a gente não pode deixar a peteca cair. Estamos muito, muito ocupados. Não paramos um minuto.

FD: O sr. mencionou prioridades. Qual é a maior preocupação do presbitério de Éfeso hoje em dia?

"Mr. M":
 Olha, veja o que aconteceu com a igreja em Corinto. Aquilo tá uma bagunça. Todo mundo falando em língua, muita música, som alto demais. Nós não podemos deixar que isso aconteça aqui. Precisamos zelar para que os nossos princípios permaneçam. Nós começamos a usar salmos, hinos e cânticos espirituais. Mas tudo tinha rima, métrica, direitinho. Agora tem essas músicas modernas aí. O som é muito alto. Precisamos tomar providências porque senão vamos perder nossa simplicidade.

FD: Por que o sr. acha que a igreja de Éfeso parou de crescer? Este não é sintoma de que a igreja não vai bem?

"Mr. M":
 Deus não está preocupado com números. O que importa é a qualidade, não a quantidade. Essas igrejas que estão crescendo é porque não estão pregando o evangelho puro. Números são enganosos. A gente não pode se basear neles para dizer se uma igreja é boa ou não. Depois, hoje em dia tem essa idolatria aí, o pessoal marca programação do templo de Diana bem na hora da nossa reunião, só para não deixar as pessoas freqüentarem a nossa igreja. É muito difícil com essa concorrência. Ninguém quer saber mais do evangelho puro.

FD: Mas no tempo de Paulo também não tinha essa oposição?

"Mr. M":
 Tinha, mas era diferente.
FD: O que era diferente?

"Mr. M":
 Era diferente.
FD: Mas qual era a diferença?

"Mr. M":
 Diferente, rapaz, diferente. Você não sabe o que é uma coisa diferente? Era diferente.

FD: A que o sr. atribui o atual declínio da igreja em Éfeso?

"Mr. M":
 Que declínio? A gente tem um monte de coisas boas aqui. Você é que parece que não se contenta com nada! Nós temos suportado provas aqui, temos resistido a homens maus e não desistimos facilmente. Faz muito tempo que estamos aqui. Nós não chegamos ontem. Não podemos jogar no lixo tudo o que nossos pais fizeram.

FD: Desculpe, acho que o sr. não entendeu minha pergunta. Eu não disse nada sobre o que os nossos pais fizeram. Estou perguntando sobre o que vocês estão fazendo. O que o sr. tem a dizer da situação atual?

"Mr. M":
 Irmão, quem é que não tem problemas? Não existe igreja perfeita! Olha o que está acontecendo com Laodicéia, com Esmirna, com Tiatira. Todo mundo está enfrentando problemas. O que importa é continuar perseverante.

FD: Mesmo que não esteja dando certo?

"Mr. M":
 Não está dando certo por que? Para mim, está ótimo. A gente tem as reuniões, estudo biblico, oração, tudo o que qualquer igreja tem. 

FD: Então, na sua opinião, não há problemas?

"Mr. M":
 Agora quem não me ouviu foi você! Eu já falei que todos nós temos problemas. Você já visitou a igreja de Sardes? Tem gente que é membro lá que pertence à sinagoga de Satanás. Você acha que isso é pouca coisa? E em Tiatira, então? Aquela Jeza que eles têm lá. Aqui pelo menos nós não temos nenhuma Jeza.

FD: É que a entrevista de hoje não é com Sardes, nem com Tiatira, é com Éfeso...

"Mr. M":
 Pois é, mas isso mostra que tem gente pior do que nós. Tem gente muito pior do que nós. Pelo menos aqui nóis tem "dutrina" (sic).

FD: Como vocês reagiram à carta que Jesus mandou para vocês, onde há ameaça até de fechamento da igreja?

"Mr. M":
 É... bom... (meio sem graça). Bom, eu não li a carta inteira ainda. Estamos esperando marcar uma reunião com todos os presbíteros, mas está difícil, porque todo mundo trabalha e não estamos conseguindo um horário que dê pra todo mundo estar presente. Mas me pareceu uma carta muito agressiva. Pode ser que ele não tenha tentado dizer isso.

FD: Pelo jeito vocês já leram a carta de Sardes, Tiatira e Laodicéia, não é?

"Mr. M":
 Não, não. Você sabe como são essas coisas. As notícias correm. A gente é de certa maneira uma referência para as igrejas. A nossa igreja foi fundada por Apolo, depois Paulo esteve aqui. Aliás, no tempo de Paulo é que era bom. Mas, enfim, as pessoas acabam procurando a gente para saber a nossa opinião sobre as coisas. Não tem como evitar isso.

FD: Aí vocês conseguem tempo?

"Mr. M"
 (vermelho, irritado): Você está insinuando alguma coisa, meu jovem? A gente ficou sabendo porque nos contaram. Eu não fui atrás de nada. Me contaram. Me contaram.

FD: Seriam bem-vindas mudanças neste momento?

"Mr. M":
 Não tem nada para mudar. Nós sempre fizemos assim. Pedir para mudar depois que a gente se acostumou com este esquema é pedir demais. Tem coisas que algumas igrejas fazem que não é do nosso costume. Ah! No tempo de Paulo... Hoje em dia ficam aí toda hora pedindo mudança, mudança. Precisamos manter as tradições.

FD: Mas parece que a carta que Cristo enviou a vocês exige mudanças.

"Mr. M":
 Eu já lhe disse que não tivemos tempo ainda de analisar esta tal carta. Vamos ver isso com calma. É preciso dar tempo ao tempo. Tem várias maneiras de se derrubar uma árvore. Podemos cortar de uma vez e podemos ir cortando galho por galho. A gente não pode ser radical. Tem muitas famílias na igreja que vêm desde o tempo de Paulo. Não podemos assustar essas pessoas. 

FD: O sr. parece respeitar muito o que Paulo disse. Ele não deixou avisado que havia o risco de lobos entrarem na igreja? Como vocês permitiram isso, se conheciam tanto os ensinos de Paulo?

"Mr. M":
 Não era de nós que Paulo estava falando. Aqui tem gente de personalidade forte, mas lobo não! Não conheço nenhum lobo aqui. Somos todos apenas humildes servos do Senhor.

FD: O sr. acredita que se Paulo estivesse vivo hoje, ele ficaria contente com a situação da sua igreja?

"Mr. M":
 Tenho certeza! Você acha que ele ia querer ser de outra igreja? No meio desta confusão que as igrejas vivem hoje, só nós defendemos a verdade. Paulo nunca ia querer ser membro de outro grupo.


O presbítero "entrevistado" é fictício, mas as respostas a estas perguntas foram ouvidas por este repórter ao longo da vida, em algum momento, em vários locais e situações diferentes. O resultado dessas respostas em Éfeso foi uma igreja sepultada pela história. Hoje, na região onde estava a igreja de Éfeso (a atual Turquia), tem menos cristãos que qualquer igreja de qualquer leitor que esteja lendo esta coluna.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Um Deus inconveniente

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O homem se torna idólatra quando tenta moldar um deus à sua imagem e semelhança. A intenção é sacudir de sobre os ombros qualquer tipo de submissão a uma vontade divina, de um Deus de verdade. Fabricando um deus de acordo com a sua vontade, o homem tenta virar sua própria divindade.

Na forma mais rudimentar de idolatria, o sujeito pega um pedaço de madeira, dá a forma que lhe interessa e diz “você é o meu deus”. Ou então, na versão mais cara-de-pau, pode dar a explicação mais esdrúxula de toda a Bíblia: “Eu peguei os brincos e braceletes do povo, joguei aí no tacho e... bingo! Saiu esse bezerro não sei como...” (Arão Óleo-de-Peroba, irmão de Moisés).

Mas na expressão mais sofisticada, fala-se em liberdade total. Você é a sua lei. Faça o que o seu coração mandar. Ninguém pode lhe dizer que algo é certo ou errado, que pode ou que não pode, que é pecado ou não. Essas coisas são tidas como “imposições da religião”, dogmas pautados nos interesses sociais ou econômicos dos grupos dominantes.

E uma vez que não existe pecado que não seja gostoso de cometer (se fosse ruim, quem pecaria?) o Deus da Bíblia acaba se tornando um grande estraga-prazeres, que proíbe tudo o que as pessoas querem fazer livremente. Não, um Deus assim não interessa, definitivamente.

Antigamente, esse Deus era inconveniente para quem não o conhecia. Agora, está ficando assim até para quem afirma conhecê-lo. Até por quem prega em nome dele. Falam de uma graça barata, que não educa para que “renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos no presente século sensata, justa e piedosamente”, conforme Tito 2:12. Mas esse versículo não é politicamente correto. Não é um versículo “firmeza”. Não é legal. Não é amigável nem acolhedor.

A gente quer um “Deus de toda graça”, que nos aceita como somos e deixa a gente ficar como está. A gente prefere dizer que “não sabe porque” não se pode permitir que os que seguem a Jesus continuem vivendo sua velha vida sem ser incomodados. O último que ouvi falar sobre isso, disse que “por ele” (o pastor da igreja) estava tudo liberado. Só não aceitava as pessoas sem mudar de vida porque a comunidade dele ainda não tinha uma “visão alargada” sobre a vida.

O problema é que Deus não se deixa dominar nem controlar. O Deus da Bíblia é indomável. Ninguém lhe diz o que fazer. Então, por mais que se tente, a idolatria da mais simples à mais sofisticada é uma enorme bobagem. Não dá para reduzi-lo a uma peça de louça nem a um conceito.

Se esta verdade lhe soa inconveniente, é melhor você mudar de ideia. Porque mudar de Deus vai jogar você no colo de um ídolo qualquer.



Marcos Senghi Soares

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Você é um cristão-classe-média?

Dia desses deparei-me com a cena: estacionada na esquina, atrapalhando a visão dos outros motoristas, uma dessas SUVs de luxo reluzia em local proibido. O “marronzinho” (fiscal de trânsito) não teve dúvida. Tirou foto, lavrou a multa quando, no meio do processo, apareceu a dona do veículo. Toda madame, salto alto, mais para Terceira Idade, gesticulando e lançando impropérios contra o moço: "E onde você quer que eu estacione o meu carro? Vou andar DOIS QUARTEIRÕES? O rapaz, treinado para situações de histeria sem causa, respondeu educadamente que não era sua função conseguir vagas, mas que o carro estava em local proibido e JÁ estava multado.

É isso que quero dizer quando falo em “mentalidade da classe média”. É verdade que generalizações costumam ser falsas. Há muita gente boa e educada em todas as classes. Aliás, o que é classe média? Eis aí o primeiro problema desta discussão. Não é tão fácil definir. Há diversos parâmetros que podem ser utilizados para isso. Estou me referindo aqui àqueles que ascenderam socialmente e que passam a achar que, por isso, agora podem tudo. São os novos donos do mundo. Esta senhora e sua visão sobre o uso do espaço público são um exemplo disso.

Muito bem. Mas o que tem me incomodado bastante nos últimos tempos é a forma como esta questão vem afetando o jeito de ser dos cristãos brasileiros e suas comunidades. A igreja brasileira está se tornando (em alguns casos, literalmente) uma “igreja classe média”. Não só sob o ponto de vista econômico, mas especialmente no sentido desta malfadada mentalidade. Destaco três tendências que comprovam esta afirmação.

Primeiro, as pessoas estão confundindo os conceitos de servo e voluntário. São parecidos, mas necessária e essencialmente distintos. Voluntário é aquele sujeito que dedica um certo número de horas a uma ONG, por exemplo. Ele sequer precisa ter comprometimento com a causa. Basta aparecer lá e ver o que querem que ele faça. Pode escolher o dia, a hora, o tempo a investir. A classe média adora esse negócio. É uma forma de amainar a consciência pesada. No Reino de Deus, não há espaço para voluntários. Aqui, quem quer contribuir tem que ser servo. Servo se dedica por conhecer quem é o seu Senhor. Faz o que faz por amor a Ele, não pelos seus interesses pessoais. Antes de perguntar: “Por que estão fazendo isso de um jeito que eu não gosto?”, prefere: “Se isso é o melhor para o Reino e para as pessoas, contem comigo.” Serviço voluntário você pode pegar e largar a qualquer tempo. Ministério é para a vida toda.

Segundo, as pessoas estão confundindo contribuição/ofertas com mensalidade. De novo, uma mentalidade tipicamente classe média. Eles pensam que, assim como no clube ou no condomínio, se estão com a “mensalidade em dia”, devem ter direito de acessar a piscina, a sauna, a quadra de esportes. Querem e querem já. E querem do jeito deles. Já vi gente indo embora porque naquele dia não havia classe para crianças e eles “não tinham onde deixar os filhos”. Já vi quem tenha mudado de igreja porque “não tinha ar condicionado naquele calorão” (alguns desses quando chegarem no inferno, como vão fazer??). A ideia é essa: se eu “pago o meu dízimo” (que expressão mais estranha!), eu tenho direito a ser “bem atendido”. Do meu jeito. No meu tempo. Assim como eu exijo dos outros “fornecedores”. Esquecem que a oferta é dada não para ser devolvida em “serviços e benefícios”, nem mesmo para as “melhorias da comunidade”. É dada a Deus. Não é investimento. É adoração.

Terceiro, as pessoas estão confundindo prosperidade com riqueza. A nova classe média experimentou filé mignon e não quer dividi-lo com ninguém. Tem mais dinheiro no bolso mas está cada vez mais pobre de espírito. É por isso que agora eles vão a finos restaurantes e tratam o garçom como se fosse um nada. O dinheiro era o destino, o porto desejado. Agora que chegaram, a vida reduziu-se à mediocridade. Da mesma forma, os cristãos-classe-média agora conseguem comprar casa para férias, pacotes de turismo para o exterior, passeios extravagantes. Nada contra. A não ser pelo fato de que isso passou a ser a prioridade. Não se leva em conta nada que não seja, primeiramente, o conforto pessoal, os pés para cima e a água de coco gelada. Afinal, durante o ano todo a gente dá um duro danado para ganhar, nas férias tem que gastar. Então, durante o ano não temos tempo para o serviço de Deus porque estamos ganhando dinheiro; e nas férias continuamos sem tempo porque estamos gastando... Tal como o povo de Israel no tempo de Ageu, enquanto habitam casas apaineladas, feita de madeira importada, a casa de Deus fica em ruínas. É só verificar, por exemplo, se proporcionalmente ao aumento da membresia e do poder aquisitivo dos membros da sua igreja, aumentaram também as ofertas para obras sociais e missionárias. É só fazer um levantamento de quantos projetos interessantíssimos estão parados por falta de recursos.

Sim, estou generalizando. Sim, você pode ficar ofendido. Sim, você pode pensar que estou com inveja de você (esta é bobagem sua). Mas como a classe média agora tem acesso a tanta informação, pelos tablets, smartphones e demais tecnologias digitais, analise por si mesmo e tire suas conclusões. Se achar que está bom assim, vá em frente.

E não esqueça de levar sua Loius Vuitton a tiracolo.


Marcos Senghi Soares

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Deixa pro ano que vem...












Amigos, entramos na reta final. 

Agora o que vale é procrastinar, deixar para mais tarde, esperar mais um pouquinho, impulsionar adiante pelo emprego do abdômen (vulgo "empurrar com a barriga"). 

Um conjunto de frases intrigantes passam a desfilar no vocabulário cotidiano. A partir de agora, o que mais se ouve é: 

"Em janeiro a gente conversa."
 
"Volte depois das férias."
 
"No ano que vem, quem sabe..."
 
"Só depois do dia 6."
 
"Final de ano é assim mesmo."
 
"Este ministério depois do Ano Novo decola." 
"É só passar essas festas que eu faço aquela visita."
 
"Agora não adianta querer melhorar. Já foi assim o ano inteiro!"
 
"Não são dois ou três fins de semana que vão fazer a diferença."
 


Mas afinal de contas, por que adiar se o dia se chama "Hoje"? Por que deixar para o ano que vem, se o ano que é ainda não acabou? Por que tentar enganar a nós mesmos achando que o que não temos vontade de fazer agora vamos ter vontade só porque a paisagem do calendário mudou?
 

Como são ilusórios nossos planos! Como é enganoso nosso coração! Como é ridícula a nossa maneira de achar que só nós somos espertos, e que podemos "enrolar" os outros conforme queremos. Mal nos apercebemos que quem está sendo enrolado é a gente mesmo. Quantos finais de ano já passamos? O que efetivamente muda quando um ano termina e o outro começa? Não aprendemos ainda?
 

Desconte-se o fato de que todos temos um limite que precisa ser respeitado. Ninguém é de ferro. Precisamos de descanso. Se respeitássemos o sistema que Deus criou para nós, de descansar um pouco a cada semana, não chegaríamos tão esgotados a cada dezembro. Trabalhamos feito loucos, um corre-corre, uma pressão, uma busca desenfreada. Ah! Se não existissem os feriados do fim-de-ano...
 

O problema real, no entanto, permanece acrisolado, intocável. Não queremos encarar o fato de que sempre colocamos a nós mesmos em primeiro lugar. Meu projeto, minha carreira, minha faculdade, meu emprego, minhas compras. Se sobrar tempo e alguma réstia de energia, entrego para Deus. Ele pode esperar até o ano que vem. Eu não posso. Minhas orações precisam de resposta, meus desejos precisam ser atendidos e tem que ser AGORA!
 

E se Deus nos disser hoje que o nosso último pedido só será atendido "depois das festas", como é que a gente vai se sentir?

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Ensinar a Bíblia inteira? De que jeito?

Já sentiu uma certa sensação de medo do Velho Testamento? Alguma vez você já evitou livros como Levítico, Deuteronômio ou os Profetas? Console-se: você não está sozinho. Há um bom número de pessoas razoavelmente acostumadas com a Bíblia que faz a mesma coisa. E talvez a culpa não seja delas. Pelo menos não somente delas.

Depois de alguns anos lidando com ensino bíblico em igrejas de portes e estilos diferentes, consegui perceber algumas tendências que podem explicar porque a atual geração de cristãos tem pouca noção panorâmica da Bíblia.

Descobri que a responsabilidade para esta “fuga” do Antigo Testamento não pode ser creditada somente dos alunos. Acontece que nos últimos 20 anos, as igrejas foram pouco a pouco abandonando o ensino expositivo (estudo livro por livro, da Bíblia toda), substituindo-o pelo ensino tópico (abordagem de assuntos).

Na prática, o que aconteceu foi o surgimento de uma geração com poucas raízes nas Escrituras. As pessoas passaram a conhecer a Bíblia aos pedaços. Uma geração inteira perdeu o “jeito” de ler o texto bíblico à luz do seu contexto e cronologia, habilidade fundamental para sua correta compreensão e aplicação.
Ouço com frequência alguns argumentos na tentativa de justificar esta prática. São lógicos, mas, para ser generoso, são limitados. Alguns deles:

 “O ensino tópico é mais relevante e contextualizado”.
Será?  Quando estudamos a Bíblia sequencialmente, seguramente vamos passar por todos os tópicos importantes da vida. Por exemplo, no livro de Gênesis, abordamos assuntos que estão na pauta do dia: casamento, família, homossexualismo, corrupção, liderança, filhos etc. Está tudo lá. Quando se estuda Êxodo, encontramos as leis que formam a base sobre a qual os profetas e, mais tarde, os apóstolos vão desenvolver seus ministérios. Não condenamos o ensino por assunto, mas alertamos que quando só ensinamos por tópicos, as pessoas perdem a noção geral das Escrituras, o que ao longo do tempo se torna trágico.

“Ensinar a Bíblia livro por livro torna-se muito cansativo e monótono”.
Será? Minha experiência tem mostrado uma adesão maciça a programas de Estudos do tipo livro por livro. O que desanima muitas vezes é a presença de um professor ou pregador mal preparado ou um currículo longo demais (há igrejas que levam 4 anos para estudar o Tabernáculo!). Mas um currículo prático e bem ministrado é empolgante.

 “Hoje em dia as pessoas não se interessam por uma informação se não conseguem ver utilidade nela.”
Verdade!  Alguém ainda acrescentaria: “O que muda a minha vida saber que Jó viveu no tempo dos Patriarcas? Qual a diferença de saber que os profetas não viveram na ordem em que os livros aparecem?” A resposta é simples: se for repassada somente como informação, realmente não vai mudar sua vida. Mas para sua melhor compreensão dos textos que eles escreveram, fará muita diferença. E isso certamente vai afetar sua vida. O “x” da questão, portanto, está em capacitar nossos professores e pregadores para mostrar como a Bíblia mantém sua unidade e como sua mensagem é totalmente conectada com a nossa realidade. É só estudar a história dos reis e profetas de Israel, por exemplo, para se ter uma clara ideia disso.

“Os novos convertidos não conseguem entender o Velho Testamento.”
Verdade! É justamente por isso que precisam ser ensinados. Se eles não compreenderem bem o que veio primeiro, como vão entender ou valorizar o que veio depois dos Evangelhos? Hoje, mais do que entre as décadas de 70 a 90, cada vez mais recebemos pessoas que se convertem depois de adultos. A maioria delas nunca teve contato com a Bíblia. Não conhecem suas histórias e por isso não conseguem entender. Elas precisam ter a oportunidade, pelo menos uma vez na vida, de estudarem tudo na sequência, para poderem ter uma compreensão melhor das Escrituras como um todo.

“Os professores precisam de um melhor preparo para ensinar a Bíblia toda.”
Verdade! Por isso mesmo, este desafio fará com que haja uma seleção natural (na qual os que não estiverem dispostos a se dedicarem ao estudo sério da Bíblia serão automaticamente desligados) e um aumento no nível do time de ensino de sua igreja. Será uma ótima oportunidade para eles crescerem. Infelizmente, muitos que “ensinam” nas igrejas hoje em dia tem um conhecimento muito limitado das Escrituras, o que não deixa de ser um contrassenso. Sem contar que muitas vezes não foram treinados em métodos de ensino e comunicação (o ministério Alvo oferece treinamentos para professores nesta área).

“Adotar um currículo livro por livro “engessa” a igreja”.
Não necessariamente! Um currículo é um caminho, um direcionamento. Não é preciso adotar um programa que tenha apenas o ensino expositivo ou livro por livro. Deve continuar havendo ensino de tópicos, palavras devocionais para a igreja etc. O que não se pode mais é abrir mão de ensinar a Bíblia sistematicamente em algum momento da semana da igreja, seja em público ou em particular.

 “Quase não existe material de apoio para estudar a Bíblia livro por livro”
Isso era verdade. Desenvolvemos um Programa de Estudos Bíblicos para apoiar as igrejas que aceitem este desafio de resgatar o ensino expositivo. É um currículo de 4 anos, dividido em fascículos de 12 lições em 48 páginas. Ele auxilia os professores fornecendo lições pré-formatada de cada texto bíblico, com começo, meio e fim, que serão uma ferramenta útil para a preparação da aula. As histórias são abordadas na ordem cronológica.

Pronto! Agora está em suas mãos. Podemos repensar nossa filosofia de ensino bíblico, fazendo pequenos mas essenciais ajustes de rota.

As gerações futuras agradecem.

Marcos Senghi Soares


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Se este artigo reflete a situação da sua igreja local, sugiro que você o compartilhe com seus líderes, presbíteros ou pastores, professores ou coordenadores de Escola Bíblica, Células ou Grupos Pequenos.

Para conhecer o Programa de Estudos Bíblicos Alvo, clique aqui. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Dez passos rápidos para introduzir o pensamento liberal em sua igreja

Não que eles precisem de ajuda. Afinal, isso é sabido até no futebol: destruir é muito mais fácil do que construir. Os pernas de pau estão aí para provar a tese. Mas vamos lá. Para ajudar a destruir a fé na Bíblia e em suas doutrinas essenciais é bem fácil.
  1.  Comece “pianíssimo”. Não vá falando o que você pensa tudo de uma vez. Vá aos poucos. Um dia você coloca em dúvida o livro de Jó, mais tarde você questiona os Evangelhos, depois os escritos de Paulo, depois volta para o livro de Isaías. Devagar. Assim fica mais difícil para alguém perceber.
  2. Seja liso como quiabo. Nunca responda diretamente o que lhe perguntarem. Lembre-se: você acredita em um mundo multicolorido, nada de preto no branco. Pode ser perigoso dizer num debate (principalmente se for público) o que você pensa sobre Deus e a Bíblia.
  3. Diga sempre que crê na Bíblia, mesmo que você já não creia mais. É uma questão de sobrevivência. Se fosse disser abertamente que não aceita mais a Bíblia como a Palavra de Deus, os fundamentalistas vão te cortar e você vai perder a visibilidade.
  4. Use e abuse destas expressões: “reinventar”, “livre pensar”, “teologia fora da caixa”, “diálogo”, “interlocução”, “maniqueísmo”, “manipulação”. Elas não querem dizer nada, nós sabemos disso. Mas dão um Ibope...
  5. Sempre que se referir àqueles que insistem em crer nesse livro retrógrado e atrasado, manipulado pelos interesses dos religiosos, que chamam de Bíblia, não perca a chance de identificá-los com os termos “fundamentalistas”, “evangélicos religiosos”, “fariseus”, “hipócritas institucionais”, “donos da verdade”. Dependendo da situação, use também “os malas”, “os seguidores do fulano de tal”.
  6. Evite a todo custo discutir esses assuntos com quem conhece a Bíblia. Prefira os mais jovens e os que não leem nada. É muito mais fácil convencer essa turma do que se desgastar com os outros e correr o risco de ser desmascarado antes da hora.
  7. Seja conservador no púlpito, mas liberal no cafezinho. Nas conversas particulares, zombe o quanto puder desse pessoal atrasado que ainda acha que se faz teologia com Bíblia. Incentive o pessoal a ler mais filósofos, a estudar em faculdades teológicas mais arejadas, que não tenham esse negócio de “linha teológica” definida.
  8. Se não tiver acesso pessoalmente às igrejas, a Internet está aí para isso. Divulgue os links, faça o pessoal mais descolado ouvir três, quatro mensagens dos profetas liberais todos os dias. É faca quente na manteiga...
  9. Comece logo, antes que os líderes e pastores percebam que a coisa é séria. Por enquanto eles estão achando que é implicância de alguns mais radicais. Quando eles acordarem, o estrago já vai estar feito.
  10. Quando perceber que já há um grupo forte o suficiente para apoiar você e questionar as doutrinas da igreja, aí você já pode se manifestar. Esse pessoal vai defende-lo até à morte e você ainda vai ser visto como um mártir.
Vamos lá! Acenda o pavio, jogue a bomba e fique de fora assistindo o que vai dar. 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

AOS MESTRES, COM CARINHO

Nos cursos de Liderança do Alvo, costumo pedir aos participantes que anotem as três pessoas que mais influenciaram suas vidas. Mais de 90% das respostas incluem pais e professores. É compreensível. Bons professores marcam nossas vidas para sempre.

Foi assim comigo também. A começar por minha mãe, Hacy Senghi Soares, que me alfabetizou em casa, antes dos cinco anos, usando a Bíblia como cartilha. Depois, na escola pública, tive professores espetaculares, como a D. Dolle e o Sr. Argemiro,  no tempo de colégio e a Jeanine, na faculdade. Todos professores de Língua Portuguesa. Não foi à toa que me formei em Letras!

Fui criado em uma igreja cristã, onde professores são sempre bem-vindos. A lista aqui é interminável. Começa na infância, onde novamente tive aulas com minha mãe e depois com D. Marlei Torres, nas manhãs quentes de domingo em Tupi Paulista. Elas incutiram em mim o amor que tenho pelas histórias da Bíblia até hoje.

E aí vem uma lista imensa de grandes mestres da exposição da Bíblia, com quem aprendi tanto. Impossível citar todos. Faço um “top 5” para, através destes, homenagear a todos os professores que me instruíram na Palavra. Começo, com saudade cada dia maior, pelo meu pai, Luiz Soares (que ensinava e vivia com paixão); Richard Jones e Henry King, igualmente saudosos. E os queridos Walter Alexander e Gavin Aitken, dos quais desfruto de abençoadora mentoria até hoje.

Sou profundamente grato a cada um. De alguma forma, vocês me influenciaram e me ajudaram a ser e fazer o que faço hoje. Cada vez que escrevo um texto, ministro uma aula ou compartilho com alguém algo que aprendi, vocês todos fazem parte disso.


Mestres queridos, amo vocês. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Visita ao xópin

Não se incomode com a grafia aportuguesada. Estou me referindo aos Shoppings, mas o que importa aqui é o conceito. 

Perambular por xópins e aeroportos é um exercício interessante.  Em ambos a gente pode observar pessoas chiques, ver coisas lindas e caras sem ter que gastar um centavo. A menos que você vá de carro, porque aí terá o custo de estacionamento.

O xópin é o paraíso do anonimato: ninguém sabe nada sobre a vida de ninguém e por isso mesmo todos se tornam iguais. Posso parar demoradamente em frente a vitrines caras, estilo Brooksfields ou Polo Play e comentar com a minha esposa: “Olha que preço ótimo daquele terno, só R$ 1.999,00!, mesmo que eu não tenha a mínima intenção ou condição de pagar nem 10% desse valor. Nada mais barato para lustrar o ego do que observar atentamente as caríssimas jóias da H.Stern, uma vez que ninguém sabe se sou cliente potencial ou não. Para todos os efeitos, eu o sou.
 

Observando atentamente, você acaba descobrindo que há mais gente ali fazendo a mesma coisa. Poucos entre aqueles que transitam pelos corredores iluminados, cheios de ofertas a preços exorbitantes, entram nas lojas e compram alguma besteirinha. Quando acontecesse, saem balançando bem alto as sacolinhas de grife, esbarram em você  
“sem querer" para que você note como podem, como gastam! 

Imagino se muita gente que frequenta igrejas durante o final de semana não pensa que está indo, mesmo, ao xópin. Chega, deixa as crianças com as "monitoras do parquinho" (a classe de Escola Dominical), enquanto aproveita para dar uma passeada, exibir o novo figurino, participar do programa, ouvir um pouco de música, para depois de algum tempo (o mínimo que for possível) pegar as crianças e voltar para casa. Se por acaso sobraram uns trocados no bolso, podem colocá-los na sacola de ofertas, como quem dá aquele “agrado” para guardadores de carro. 

Tal como no xópin, você pode entrar e sair sem levar nada. Pode ser só um passeio mesmo, um passatempo: momento de distrair-se um pouco, ver pessoas, olhar vitrines, mas chegar à porta de saída do mesmíssimo jeito que entrou. Você pode escolher o que mais lhe interessa e até decidir que nada daquilo é para o seu bico. Pode escolher o horário mais conveniente. Tudo muito interiorizado. Ninguém precisa saber quais são as suas reais intenções. Não existe lei que proíba olhar e não levar. Ou ouvir e não escutar. Ou ser ensinado e não aprender.
 

Isso só é possível no contexto da igreja atual porque  inventaram o “foro íntimo”. Ele é conhecido popularmente como o “ninguém-tem-nada-a-ver-com-a-minha-vida”.  É a ideia do "cada um por si e que Deus tenha misericórdia de nós".


Não admira porque os tais frequentadores podem estar ali por décadas, sem passar por nenhum tipo de transformação: é que ao invés de saírem de casa com o coração de adoradores, saem com a mentalidade de consumidores.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Cânticos da Caverna parte 4 (Salmo 57): A Turma de Adulão

A introdução do salmo informa que Davi o escreveu "quando fugia de Saul, na caverna."  É provável que tenha sido a caverna de Adulão (I Samuel 22:1-5), onde Davi iniciou sua carreira de “discipulador de bandoleiros”. A ele se juntaram todo tipo de gente com problemas que você possa imaginar! Não bastasse sua vida de fugas e sobressaltos, agora ele se tornou o chefe de 400 homens com nome sujo no SPC, Polícia Federal, sogros bravos, credores furiosos.

Quando se sentam para uma refeição improvisada, o equivalente ao brasileiríssimo cafezinho, lá no fundo da caverna úmida e escura, os novos e únicos amigos de Davi esperam que ele lhes diga alguma coisa. Eles se reúnem em volta do futuro rei de Israel, ajeitam-se amontoados e fazem um silêncio reverente. Davi pega sua harpa e começa a tangê-la. E o seu canto é surpreendente para o momento que todos vivem:

“Firme está o meu coração ó Deus, o meu coração está firme; cantarei e entoarei louvores. Desperta ó minha alma! Despertai lira e harpa! Quero acordar a alva. Render-te-ei graças entre os povos; cantar-te-ei louvores entre as nações”.
Como é que alguém poderia cantar isso numa situação daquelas? E qual o impacto que isso deve ter causado na vida e no moral daqueles homens que se refugiaram na caverna de Adulão, fugindo de seus problemas e crises pessoais?

Davi pede para ficar “debaixo das asas” de Deus (v.1). Que imagem linda de proteção e cuidado! Uma ave aninhando seus filhotes em meio a uma tempestade passa sempre a ideia de paz em meio ao caos. É assim que Davi se sente: “só até a calamidade passar”.

Mais uma vez, ele reconhece que sua situação não é das melhores (v.2-4). Ele depende do livramento do Senhor, caso contrário sua vida estará em risco. Seus inimigos não lhe darão trégua. Ele os descreve como homens ferinos e maus, que não teriam dúvida em apelar para a violência para eliminá-lo do cenário.

Em meio a seus problemas e angústias, Deus continua sendo seu tema principal. Um Deus exaltado, soberano, Senhor da história e da sua história particular. O louvor não produz nada, ele é sempre o resultado, o fruto dos lábios que confessam o nome do Senhor. Davi não está louvando para esquecer seus problemas ou para acalmar seu coração. Ele exalta a Deus por saber que Ele continua sendo Deus apesar de sua situação não ser favorável.

Sua experiência pessoal com Deus lhe permite confiar em seus atributos maravilhosos: misericórdia (v.1, 3), fidelidade (v.3), soberania (v.5). Deus se revela, se envolve, se apresenta. Embora haja dias em que Ele parece estar escondido em algum lugar da imensidão do Universo, podemos firmar nosso coração da certeza de que ele nunca esquecerá seu amor e cuidado pelos seus.


Portanto, quando a gente precisa entrar na caverna, mesmo que fugindo de pessoas más que não querem o nosso bem, temos a garantia de que ali a misericórdia e a fidelidade de Deus estão conosco. O segredo é manter firme o coração em Deus. Isto é praticamente a única coisa que podemos controlar enquanto o mundo se vira contra nós. Davi não podia controlar o coração e os impulsos de Saul, mas podia controlar os seus. E decidiu não abrir mão desta decisão. 

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Cânticos da Caverna parte 3 (Salmo 56): Teologia do Choro

Na mesma época, quem no mesmo dia até, que escreveu o salmo que consideramos na postagem anterior, está o salmo 56. Portanto, não é necessário repetir o contexto histórico.

As circunstâncias são absolutamente desfavoráveis. Davi não nega isso (v.1-7). Ele não faz uma “confissão positiva”, rejeitando o sofrimento e o aperto que está passando. Ao contrário, ele os relata com todas as letras diante do Senhor. Ele está consciente de que sua vida corre risco. Ele sabe que não pode baixar a guarda, que tem gente no seu encalço. Que as pessoas estão colocando seu pescoço a prêmio.

A vida não está fácil para Davi. A vida não é fácil para ninguém. E então ele chora (v.8). Derrama lágrimas que as mães de crianças pequenas chamam de “choro sentido”. Ao longo da vida você vai descobrindo que o choro, assim como a morte, nos nivela, nos iguala, nos coloca debaixo da mesma situação. O choro é democrático. Choramos quando percebemos que não temos resposta, que não temos saída. Choramos quando temos medo, ou quando estamos com raiva, ou tristes ou quando alguma coisa não saiu conforme o esperado. Choramos quando nos sentimos impotentes diante de uma situação. Quando percebemos que as circunstâncias estão fora do nosso controle, que não temos força para reverter o quadro. É quase um ato de entrega. É o reconhecimento da nossa limitação, na nossa pequenez, da nossa vocação para poeira. A gente veio do pó. Choramos porque somos humanos, porque somos normais.  

A grande descoberta de Davi é que Deus estava presente o tempo todo, recolhendo cada lágrima em seu odre (v.8b c/ II Reis 20:5) e no seu livro (v.8c). A linguagem é poética, mas não poderia descrever de forma melhor o cuidado amoroso do Pai. Quem mais faria isso por nós? Em contraste com aqueles que o seguiam para “espionar seus passos” (v.6), ele sabe que Deus “contava seus passos”.

A esperança de Davi é clara como cristal. Ela é posta “em Deus” (v.4, 10, 11). Na versão Septuaginta, esta expressão é “en Teos”, de onde temos nossa palavra “entusiasmado”. Deus é a nossa grande motivação. Quando esperamos nele, fixamos nossos olhos no “todavia” e não no “ainda que” (Hc 3:17-18). Sua palavra é fiel e digna de louvor (v. 10). Ele não é um Deus confuso e inconstante, que cada dia fala uma coisa diferente. Ele é totalmente confiável. Como ele encontramos a “luz da vida” (v.13). Podemos caminhar com confiança, andando em Sua presença.

Estas palavras não foram o produto de um afastamento da vida real. Não foram escritas em um mosteiro, mas em uma profunda caverna, física e existencial. Se consideramos este salmo uma pérola, porque foi regado com as lágrimas de seu compositor, podemos também considera-lo com inscrição em rocha, porque foi talhado na confiança inabalável da inegável experiência pessoal de quem disse estas palavras. 


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