quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Você é um cristão-classe-média?

Dia desses deparei-me com a cena: estacionada na esquina, atrapalhando a visão dos outros motoristas, uma dessas SUVs de luxo reluzia em local proibido. O “marronzinho” (fiscal de trânsito) não teve dúvida. Tirou foto, lavrou a multa quando, no meio do processo, apareceu a dona do veículo. Toda madame, salto alto, mais para Terceira Idade, gesticulando e lançando impropérios contra o moço: "E onde você quer que eu estacione o meu carro? Vou andar DOIS QUARTEIRÕES? O rapaz, treinado para situações de histeria sem causa, respondeu educadamente que não era sua função conseguir vagas, mas que o carro estava em local proibido e JÁ estava multado.

É isso que quero dizer quando falo em “mentalidade da classe média”. É verdade que generalizações costumam ser falsas. Há muita gente boa e educada em todas as classes. Aliás, o que é classe média? Eis aí o primeiro problema desta discussão. Não é tão fácil definir. Há diversos parâmetros que podem ser utilizados para isso. Estou me referindo aqui àqueles que ascenderam socialmente e que passam a achar que, por isso, agora podem tudo. São os novos donos do mundo. Esta senhora e sua visão sobre o uso do espaço público são um exemplo disso.

Muito bem. Mas o que tem me incomodado bastante nos últimos tempos é a forma como esta questão vem afetando o jeito de ser dos cristãos brasileiros e suas comunidades. A igreja brasileira está se tornando (em alguns casos, literalmente) uma “igreja classe média”. Não só sob o ponto de vista econômico, mas especialmente no sentido desta malfadada mentalidade. Destaco três tendências que comprovam esta afirmação.

Primeiro, as pessoas estão confundindo os conceitos de servo e voluntário. São parecidos, mas necessária e essencialmente distintos. Voluntário é aquele sujeito que dedica um certo número de horas a uma ONG, por exemplo. Ele sequer precisa ter comprometimento com a causa. Basta aparecer lá e ver o que querem que ele faça. Pode escolher o dia, a hora, o tempo a investir. A classe média adora esse negócio. É uma forma de amainar a consciência pesada. No Reino de Deus, não há espaço para voluntários. Aqui, quem quer contribuir tem que ser servo. Servo se dedica por conhecer quem é o seu Senhor. Faz o que faz por amor a Ele, não pelos seus interesses pessoais. Antes de perguntar: “Por que estão fazendo isso de um jeito que eu não gosto?”, prefere: “Se isso é o melhor para o Reino e para as pessoas, contem comigo.” Serviço voluntário você pode pegar e largar a qualquer tempo. Ministério é para a vida toda.

Segundo, as pessoas estão confundindo contribuição/ofertas com mensalidade. De novo, uma mentalidade tipicamente classe média. Eles pensam que, assim como no clube ou no condomínio, se estão com a “mensalidade em dia”, devem ter direito de acessar a piscina, a sauna, a quadra de esportes. Querem e querem já. E querem do jeito deles. Já vi gente indo embora porque naquele dia não havia classe para crianças e eles “não tinham onde deixar os filhos”. Já vi quem tenha mudado de igreja porque “não tinha ar condicionado naquele calorão” (alguns desses quando chegarem no inferno, como vão fazer??). A ideia é essa: se eu “pago o meu dízimo” (que expressão mais estranha!), eu tenho direito a ser “bem atendido”. Do meu jeito. No meu tempo. Assim como eu exijo dos outros “fornecedores”. Esquecem que a oferta é dada não para ser devolvida em “serviços e benefícios”, nem mesmo para as “melhorias da comunidade”. É dada a Deus. Não é investimento. É adoração.

Terceiro, as pessoas estão confundindo prosperidade com riqueza. A nova classe média experimentou filé mignon e não quer dividi-lo com ninguém. Tem mais dinheiro no bolso mas está cada vez mais pobre de espírito. É por isso que agora eles vão a finos restaurantes e tratam o garçom como se fosse um nada. O dinheiro era o destino, o porto desejado. Agora que chegaram, a vida reduziu-se à mediocridade. Da mesma forma, os cristãos-classe-média agora conseguem comprar casa para férias, pacotes de turismo para o exterior, passeios extravagantes. Nada contra. A não ser pelo fato de que isso passou a ser a prioridade. Não se leva em conta nada que não seja, primeiramente, o conforto pessoal, os pés para cima e a água de coco gelada. Afinal, durante o ano todo a gente dá um duro danado para ganhar, nas férias tem que gastar. Então, durante o ano não temos tempo para o serviço de Deus porque estamos ganhando dinheiro; e nas férias continuamos sem tempo porque estamos gastando... Tal como o povo de Israel no tempo de Ageu, enquanto habitam casas apaineladas, feita de madeira importada, a casa de Deus fica em ruínas. É só verificar, por exemplo, se proporcionalmente ao aumento da membresia e do poder aquisitivo dos membros da sua igreja, aumentaram também as ofertas para obras sociais e missionárias. É só fazer um levantamento de quantos projetos interessantíssimos estão parados por falta de recursos.

Sim, estou generalizando. Sim, você pode ficar ofendido. Sim, você pode pensar que estou com inveja de você (esta é bobagem sua). Mas como a classe média agora tem acesso a tanta informação, pelos tablets, smartphones e demais tecnologias digitais, analise por si mesmo e tire suas conclusões. Se achar que está bom assim, vá em frente.

E não esqueça de levar sua Loius Vuitton a tiracolo.


Marcos Senghi Soares

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Deixa pro ano que vem...












Amigos, entramos na reta final. 

Agora o que vale é procrastinar, deixar para mais tarde, esperar mais um pouquinho, impulsionar adiante pelo emprego do abdômen (vulgo "empurrar com a barriga"). 

Um conjunto de frases intrigantes passam a desfilar no vocabulário cotidiano. A partir de agora, o que mais se ouve é: 

"Em janeiro a gente conversa."
 
"Volte depois das férias."
 
"No ano que vem, quem sabe..."
 
"Só depois do dia 6."
 
"Final de ano é assim mesmo."
 
"Este ministério depois do Ano Novo decola." 
"É só passar essas festas que eu faço aquela visita."
 
"Agora não adianta querer melhorar. Já foi assim o ano inteiro!"
 
"Não são dois ou três fins de semana que vão fazer a diferença."
 


Mas afinal de contas, por que adiar se o dia se chama "Hoje"? Por que deixar para o ano que vem, se o ano que é ainda não acabou? Por que tentar enganar a nós mesmos achando que o que não temos vontade de fazer agora vamos ter vontade só porque a paisagem do calendário mudou?
 

Como são ilusórios nossos planos! Como é enganoso nosso coração! Como é ridícula a nossa maneira de achar que só nós somos espertos, e que podemos "enrolar" os outros conforme queremos. Mal nos apercebemos que quem está sendo enrolado é a gente mesmo. Quantos finais de ano já passamos? O que efetivamente muda quando um ano termina e o outro começa? Não aprendemos ainda?
 

Desconte-se o fato de que todos temos um limite que precisa ser respeitado. Ninguém é de ferro. Precisamos de descanso. Se respeitássemos o sistema que Deus criou para nós, de descansar um pouco a cada semana, não chegaríamos tão esgotados a cada dezembro. Trabalhamos feito loucos, um corre-corre, uma pressão, uma busca desenfreada. Ah! Se não existissem os feriados do fim-de-ano...
 

O problema real, no entanto, permanece acrisolado, intocável. Não queremos encarar o fato de que sempre colocamos a nós mesmos em primeiro lugar. Meu projeto, minha carreira, minha faculdade, meu emprego, minhas compras. Se sobrar tempo e alguma réstia de energia, entrego para Deus. Ele pode esperar até o ano que vem. Eu não posso. Minhas orações precisam de resposta, meus desejos precisam ser atendidos e tem que ser AGORA!
 

E se Deus nos disser hoje que o nosso último pedido só será atendido "depois das festas", como é que a gente vai se sentir?

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Ensinar a Bíblia inteira? De que jeito?

Já sentiu uma certa sensação de medo do Velho Testamento? Alguma vez você já evitou livros como Levítico, Deuteronômio ou os Profetas? Console-se: você não está sozinho. Há um bom número de pessoas razoavelmente acostumadas com a Bíblia que faz a mesma coisa. E talvez a culpa não seja delas. Pelo menos não somente delas.

Depois de alguns anos lidando com ensino bíblico em igrejas de portes e estilos diferentes, consegui perceber algumas tendências que podem explicar porque a atual geração de cristãos tem pouca noção panorâmica da Bíblia.

Descobri que a responsabilidade para esta “fuga” do Antigo Testamento não pode ser creditada somente dos alunos. Acontece que nos últimos 20 anos, as igrejas foram pouco a pouco abandonando o ensino expositivo (estudo livro por livro, da Bíblia toda), substituindo-o pelo ensino tópico (abordagem de assuntos).

Na prática, o que aconteceu foi o surgimento de uma geração com poucas raízes nas Escrituras. As pessoas passaram a conhecer a Bíblia aos pedaços. Uma geração inteira perdeu o “jeito” de ler o texto bíblico à luz do seu contexto e cronologia, habilidade fundamental para sua correta compreensão e aplicação.
Ouço com frequência alguns argumentos na tentativa de justificar esta prática. São lógicos, mas, para ser generoso, são limitados. Alguns deles:

 “O ensino tópico é mais relevante e contextualizado”.
Será?  Quando estudamos a Bíblia sequencialmente, seguramente vamos passar por todos os tópicos importantes da vida. Por exemplo, no livro de Gênesis, abordamos assuntos que estão na pauta do dia: casamento, família, homossexualismo, corrupção, liderança, filhos etc. Está tudo lá. Quando se estuda Êxodo, encontramos as leis que formam a base sobre a qual os profetas e, mais tarde, os apóstolos vão desenvolver seus ministérios. Não condenamos o ensino por assunto, mas alertamos que quando só ensinamos por tópicos, as pessoas perdem a noção geral das Escrituras, o que ao longo do tempo se torna trágico.

“Ensinar a Bíblia livro por livro torna-se muito cansativo e monótono”.
Será? Minha experiência tem mostrado uma adesão maciça a programas de Estudos do tipo livro por livro. O que desanima muitas vezes é a presença de um professor ou pregador mal preparado ou um currículo longo demais (há igrejas que levam 4 anos para estudar o Tabernáculo!). Mas um currículo prático e bem ministrado é empolgante.

 “Hoje em dia as pessoas não se interessam por uma informação se não conseguem ver utilidade nela.”
Verdade!  Alguém ainda acrescentaria: “O que muda a minha vida saber que Jó viveu no tempo dos Patriarcas? Qual a diferença de saber que os profetas não viveram na ordem em que os livros aparecem?” A resposta é simples: se for repassada somente como informação, realmente não vai mudar sua vida. Mas para sua melhor compreensão dos textos que eles escreveram, fará muita diferença. E isso certamente vai afetar sua vida. O “x” da questão, portanto, está em capacitar nossos professores e pregadores para mostrar como a Bíblia mantém sua unidade e como sua mensagem é totalmente conectada com a nossa realidade. É só estudar a história dos reis e profetas de Israel, por exemplo, para se ter uma clara ideia disso.

“Os novos convertidos não conseguem entender o Velho Testamento.”
Verdade! É justamente por isso que precisam ser ensinados. Se eles não compreenderem bem o que veio primeiro, como vão entender ou valorizar o que veio depois dos Evangelhos? Hoje, mais do que entre as décadas de 70 a 90, cada vez mais recebemos pessoas que se convertem depois de adultos. A maioria delas nunca teve contato com a Bíblia. Não conhecem suas histórias e por isso não conseguem entender. Elas precisam ter a oportunidade, pelo menos uma vez na vida, de estudarem tudo na sequência, para poderem ter uma compreensão melhor das Escrituras como um todo.

“Os professores precisam de um melhor preparo para ensinar a Bíblia toda.”
Verdade! Por isso mesmo, este desafio fará com que haja uma seleção natural (na qual os que não estiverem dispostos a se dedicarem ao estudo sério da Bíblia serão automaticamente desligados) e um aumento no nível do time de ensino de sua igreja. Será uma ótima oportunidade para eles crescerem. Infelizmente, muitos que “ensinam” nas igrejas hoje em dia tem um conhecimento muito limitado das Escrituras, o que não deixa de ser um contrassenso. Sem contar que muitas vezes não foram treinados em métodos de ensino e comunicação (o ministério Alvo oferece treinamentos para professores nesta área).

“Adotar um currículo livro por livro “engessa” a igreja”.
Não necessariamente! Um currículo é um caminho, um direcionamento. Não é preciso adotar um programa que tenha apenas o ensino expositivo ou livro por livro. Deve continuar havendo ensino de tópicos, palavras devocionais para a igreja etc. O que não se pode mais é abrir mão de ensinar a Bíblia sistematicamente em algum momento da semana da igreja, seja em público ou em particular.

 “Quase não existe material de apoio para estudar a Bíblia livro por livro”
Isso era verdade. Desenvolvemos um Programa de Estudos Bíblicos para apoiar as igrejas que aceitem este desafio de resgatar o ensino expositivo. É um currículo de 4 anos, dividido em fascículos de 12 lições em 48 páginas. Ele auxilia os professores fornecendo lições pré-formatada de cada texto bíblico, com começo, meio e fim, que serão uma ferramenta útil para a preparação da aula. As histórias são abordadas na ordem cronológica.

Pronto! Agora está em suas mãos. Podemos repensar nossa filosofia de ensino bíblico, fazendo pequenos mas essenciais ajustes de rota.

As gerações futuras agradecem.

Marcos Senghi Soares


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Se este artigo reflete a situação da sua igreja local, sugiro que você o compartilhe com seus líderes, presbíteros ou pastores, professores ou coordenadores de Escola Bíblica, Células ou Grupos Pequenos.

Para conhecer o Programa de Estudos Bíblicos Alvo, clique aqui.